(12o Concurso dos Blogueiros Malditos - Orkut)
Em toda minha vida, sempre tive que lutar para ter reconhecimento da minha família e amigos, coisa que na verdade nunca aconteceu. Por mais que achasse que teria êxito em alguma coisa que fizesse, acabava sempre sendo desmoralizado.
Sou o mais velho de uma família de cinco irmãos. Se é que tenho irmãos de verdade, pois o tratamento que recebo de meus pais em relação a eles sempre foi diferente. Talvez eu seja um bastardo qualquer e ainda não saiba.
Meu nascimento foi envolto a grandes dificuldades, tanto financeiro como em relação a minha própria saúde. Nasci com má formação dos ossos na perna direita e ao crescer esse problema fez com que minha perna direita não se desenvolvesse totalmente, me fazendo mancar.
Cresci ouvindo as risadas do meu pai em zombaria ao meu modo de andar. Um velho bêbado e grosseiro. Já minha mãe silenciava diante das atitudes dele. Confesso que o comportamento de minha mãe me atormentava, pois no meu íntimo eu clamava por uma palavra de defesa e carinho por parte dela. Cresci sendo o menino bizarro da rua e também da escola. Tudo isso me fez ser um jovem tímido e calado.
Dentro de mim o ódio e o rancor estavam sendo gerados. Como um filho no útero.
Mesmo com o ódio crescendo, eu travava uma luta interna. Pois ao mesmo tempo em que eu tinha ódio das pessoas, eu também queria poder ajudar. Pensei em cursar medicina, e sem pestanejar prestei vários vestibulares em diversas faculdades.
Para minha íntima alegria consegui passar no curso de medicina, de uma Faculdade Estadual. Tive êxito devido aos meus esforços, ao meu mérito pessoal, não dependi de ninguém. Êxito esse, que passou despercebido entre meus familiares.
Sempre calado e cabisbaixo, terminei o primeiro semestre com excelentes notas. Tão logo se iniciou o segundo, uma garota me chamou a atenção de maneira intensa. Das moças que pela faculdade transitavam, ela era a mais bela.
De gestos delicados, sorriso inocente e ao mesmo tempo profano. Cabelos negros como noite sem Lua, de pele muito branca, da cor do marfim. Fiquei transtornado e desejoso de te-la em meus braços. Era um Anjo cruel, Anjo de marfim. Senti que a amava e a odiava tanto, que por diversas vezes sonhei ver o contraste do seu sangue carmim sobre a pele alva. Seu desprezo para comigo era cruel.
Ela não me olhava nos olhos, e com sua arrogância me ignorava. Na sala de aula ouvia seu riso com as amigas. Certamente perceberam meus desconcertos quando eu me deparava com ela. Eu sei que era motivo de chacota entre os alunos, meu olhar de soslaio percebia o que se passava.
Depois de um tempo, com minhas economias comprei um carro. Assim eu poderia andar pela cidade nas horas de solidão. Confesso que muitos pensamentos vinham me atormentar, principalmente quando estava me preparando para dormir.
Os dias foram se passando e o rancor aumentando. Dia após dia eu só pensava naquela pele alva, na vontade de rasga-la e ver a cor do seu sangue, sentir o sabor do rubro licor.
Minha obsessão era grande, tão grande que não sei exatamente como consegui que meu anjo de marfim aceitasse uma carona minha. Talvez fosse pelo adiantar da hora, já que havia saído tarde do hospital da faculdade naquela noite, e eu passava por ali “despretensiosamente”.
Levei-a em um armazém abandonado, onde eu me escondia quando criança, sempre que sentia rejeitado, triste, com raiva. A fiz entrar com o pretexto de que ali ainda havia objetos raros do antigo armazém, que o proprietário havia deixado para trás quando faliu. Soube meses antes, de que ela gostava de antiguidades e planejei por semanas uma possível abordagem e de como a levaria no local escolhido. No caminho comentei que havia comprado uma bebida muito famosa, que muitas pessoas comentavam e que havia me dado água na boca, perguntei se gostaria de experimentar comigo. Pela primeira vez ela me olhou nos olhos e sorriu, aceitando o convite. Meu coração disparou, vieram inúmeros pensamentos e a excitação tomou conta do meu corpo.
Parei o carro uns metros longe do armazém com a desculpa de que tinha medo de que ladrões o levassem.
Logo que chegamos ao segundo andar do armazém, abri a garrafa da inebriante bebida e a deixei se deliciar com o líquido verde. Acendi velas, espalhei algumas sobre o chão. Percebendo que ela já estava sob os efeitos da Fada Verde, eu a esbofeteei com toda força que estava guardada em mim, ela foi lançada alguns poucos metros de onde eu estava. Foi jogada ao chão, havia chegado o momento. Todo o ódio, toda a raiva, todo o desprezo que ela me direcionava, as chacotas feitas para mim, toda a minha infância, vieram como um filme em minha mente. Olhando para ela com ódio e com sarcasmo na voz, eu disse:
- Ah, meu anjo de marfim, estamos aqui somente eu e você. Não fale nada, vejo o medo estampado em seus olhos. Não chore, beba mais, é Absinto, você se sentirá melhor, mais tranqüila. Eu a trouxe para esse lugar, para que pudéssemos ficar juntos um pouco, conversar. Você sempre zombou de mim, não é mesmo? Enfim o momento tão esperado, chegou. Não é da maneira como eu sonhava, mas da maneira como meu ódio clamava.
Meu anjo de marfim já não estava mais consciente, a despi como um animal feroz, a beijei, a mordi. Ela estava mais linda do que nunca, toda nua sob a luz das velas que para ela trouxe.
Nesse momento eu desejei ver mais que simplesmente seu corpo nu. Queria ver a cor do seu sangue. Friamente peguei o bisturi que havia roubado das aulas de anatomia e comecei a abrir sua pele. Ela gemeu, não sabia o que estava acontecendo. A Fada Verde entorpeceu seus sentidos, e assim continuei minha exploração. Cuidadosamente fui abrindo sua carne, até que meu anjo aos poucos foi se desfalecendo e deixando seu corpo somente para mim. Sobre o corpo inerte e frio fui conhecendo meu anjo de marfim através de cada veia, de cada órgão. Eu ali, também nu me lambuzei com seu rubro licor. Eu a amei e a odiei tanto.
Depois de tudo terminado, de ter conhecido cada parte daquele corpo branco, olhei pela última vez meu anjo de marfim, que agora eram pedaços amontoados e disse com voz trêmula:
- Meu anjo de marfim, agora tenho que ir. Mas antes quero que vá para o céu, unida nas chamas que farei para você.
Para não ser descoberto e por não querer que soubessem que naquela noite houve um ritual de amor e ódio no velho armazém, coloquei fogo em pontos estratégicos para que se alastrasse rapidamente. Fiz de maneira que as labaredas fossem impiedosas. Elas consumiram cada canto daquele lugar e cada pedacinho do corpo do meu anjo.
Segui caminhando pela rua em direção ao meu carro, deixei para trás as chamas famintas devorarem aquela velha edificação. As ruas estavam vazias, não olhei para trás.
Do armazém só levei a lembrança daquele corpo nu e no meu corpo levei a cor das tuas entranhas.